Artigos

 
Introdução.
  

            O Manual de Culto da IPIB propõe modelos de liturgias seguindo a nossa tradição reformada. Dos diversos temas litúrgicos do manual, podemos observar, por exemplo, a coesão entre textos, hinos, canteiros (músicas), orações e ainda o enfoque dos mesmos em relação aos sacramentos, pregação e afirmações de fé. Nesta lição vamos abordar a importância de se observar a coesão que deve existir entre essas diversas partes do culto. Sugestivamente o texto básico acima citado considera a preocupação do apóstolo Paulo acerca da ordem que deve haver no momento de culto.

  

1)       Princípios educativos do culto. 

Nas igrejas onde existe a prática de liturgia impressa e distribuída à comunidade, é comum observarmos com mais clareza uma certa ordem no serviço litúrgico. Isso não quer dizer que nas igrejas onde não existe liturgia impressa não haja ordem, decência e coesão. Entretanto, quero enfatizar que na liturgia impressa existe mais facilidade para se educar a comunidade quanto aos princípios educativos do culto. Por exemplo, o boletim semanal que traz a liturgia impressa do culto de domingo, pode servir também de material reflexivo e devocional durante a semana seguinte. Cada tema abordado no culto de domingo pode ser estudado em casa com mais tempo, podendo propiciar à comunidade melhor compreensão do compromisso que assumimos com Deus e com a sociedade em cada culto.

O princípio educativo que estou propondo nesta lição aponta para as diversas partes que compõem a liturgia do culto. Cada parte do culto requer da comunidade tanto participação quanto compromisso; é por isso que estou afirmando o caráter educacional do culto.

O primeiro destaque que faço é em relação à música e a mensagem. Impressa ou não, a liturgia precisa trazer coesão entre todas as suas partes, principalmente no quesito música e mensagem. Todas as músicas – sejam hinos, coros, cânticos etc – com suas respectivas letras, devem atender coerentemente à mensagem dos textos bíblicos lidos ou recitados no momento do culto. Nos cultos em que serão celebrados os sacramentos, deve existir especial atenção para que haja coesão entre a música e a mensagem destas e dos textos bíblicos. É por isso que estou afirmando o caráter educativo do culto, pois, dessa forma, cremos que a comunidade é educada a cultuar a Deus de forma ordenada; seja por meio da música, da leitura bíblica, da oração ou confissão.

O segundo destaque que faço é em relação à mensagem das orações. É muito comum ver e ouvir “atropelamento” das partes do culto quanto à mensagem das orações. Isso evidencia a desatenção da comunidade em relação ao tema do culto. Por exemplo, na parte conhecida de “Chamada à adoração”. O liturgista solicita ao fiel que dirija a comunidade numa oração de adoração a Deus; este, por sua vez, atropela o momento do culto e ora confessando pecados, ou, intercede por este ou aquele motivo, e acaba não atendendo o momento do culto que era adorar a Deus. É comum também ver em determinadas liturgias a indicação de textos bíblicos, ou hinos, ou músicas diversas atropelando as diversas divisões da liturgia. Como disse na lição anterior, Calvino sempre enfatizou que deve haver no culto inteligibilidade bíblica e teológica. Portanto, àqueles que preparam a liturgia do culto, devem ter o discernimento de que o culto, além de espiritual, é também educativo, ou seja, deve ser também racional, Rm 12.1-2.

 

2)       Princípios teológicos da mensagem musical. 

Na lição anterior falamos um pouco sobre nossa tradição musical. Falamos, por exemplo, da nossa exclusiva dependência musical do Salmos e Hinos. Falamos também, guardadas as devidas considerações, do preconceito em relação à inspiração musical brasileira. Entretanto, vou agora – falando em coesão musical e litúrgica – enfatizar um pouco a mensagem teológica das músicas cantadas em nossas igrejas.

Todos nós sabemos que é do pastor e do conselho a responsabilidade educacional na igreja. É especialmente do pastor a atribuição de cuidar do conteúdo teológico apresentado ou ensinado na igreja. Em se tratando da música na igreja, é comum ver os pastores atentos à mensagem teológica das músicas. Porém, é preciso destacar o fato de que esta atenção tem sido notada apenas em relação aos chamados “cânticos” apresentados pelos grupos de louvores em nossas igrejas. Quero reiterar que essa atenção é tanto constitucional quanto importante. Entretanto, é incomum ver a mesma atenção dada quanto à mensagem teológica apresentada no Salmos e hinos ou outros hinos tradicionais. A atribuição constitucional dada ao pastor quanto à supervisão da liturgia, não afirma, por exemplo, que o Salmos e Hinos está acima de qualquer suspeita. Portanto, se proibimos ou corrigimos devidamente apenas a mensagem dos chamados “cânticos”, usamos de preconceito descabido em relação à cultura musical brasileira. A mesma medida que usarmos para averiguar a mensagem teológica dos “cânticos”, deve ser também usada para com o Salmos e Hinos e outros.

É importante lembrar que o Hinário Oficial da IPIB, o Cantai Todos os Povos, lançado na comemoração do centenário, levou em consideração essa mesma postura de averiguar o conteúdo da mensagem teológica dos hinos tradicionais e dos chamados “cânticos”. Aliás, a comissão que preparou o nosso hinário oficial, teve a sensibilidade democrática de enviar à todas as nossas igrejas um questionário que colhia a opinião do pastor, do conselho, do regente e de outros líderes acerca dos hinos que deveriam constar do novo hinário, bem como as mudanças sugestivas sobre cada hino. Se comparado ao Salmos e Hinos, o CTP sofreu uma considerável redução em termos de quantidade. Entretanto, deu também merecido valor e reconhecimento às várias composições populares da nossa cultura brasileira.

Dos muitos hinos tradicionais extintos no CTP, quero citar o exemplo do hino nº 284 “A última hora” do Salmos e Hinos. A mensagem teológica desse hino se opõe radicalmente à mensagem da nossa tradição reformada calvinista. O coro desse hino traz a seguinte mensagem: “Meu amigo, hoje tu tens a escolha: vida ou morte, qual vais aceitar? Amanhã pode ser muito tarde. Hoje Cristo te quer libertar”. Essa mensagem destoa da nossa tradição. Nós presbiterianos cremos e ensinamos que é Deus quem nos escolhe em Cristo por meio de sua exclusiva graça. Ou, como dizia Calvino, com o pecado, o ser humano ficou desprovido de qualquer condição para escolher o bem.

Portanto, é preciso ter sempre atenção com o conteúdo e mensagem de todas as partes do culto que oferecemos a Deus. Repito o dito de Calvino, todo culto deve ter inteligibilidade bíblica e teológica. E cabe ao pastor e conselho, constitucionalmente, essa responsabilidade.

 

3)       A coesão musical e litúrgica se dá por meio da mensagem e não do rítimo. 

Constitui-se em grave equívoco privilegiar o ritmo musical em detrimento da mensagem. Aliás, o nosso hinário oficial, o CTP, segue padrão adequado de divisão dos hinos para cada parte da liturgia. No sumário do CTP encontramos as diversas partes que compõem o culto. Em todas elas o critério de escolha privilegiou a mensagem e o conteúdo teológico. O ritmo é fator secundário. Não deve ter peso algum em relação ao critério de escolha do hino para cada parte da liturgia.

Por exemplo, na IPI do Jabaquara, onde estou pastoreando, sempre escolho os hinos considerando cada momento do culto, priorizando a unidade de mensagem entre hino, texto bíblico, oração e até das participações do coral. A meu ver, esta forma faz com que a comunidade tenha mais recurso para se inteirar racional e espiritualmente acerca de cada parte do culto. O grupo de louvor também segue a mesma didática. Ou seja, escolhe as músicas que serão entoadas no culto com base na liturgia impressa e disponível antecipadamente no boletim dominical. Os ministérios de música devem estar atentos a esse enfoque educacional do culto. Cada grupo musical, seja, quarteto, coral, solo, conjunto etc, deve – à indicação do pastor – apresentar sua adoração a Deus nas disposições adequadas de cada parte da liturgia. Dessa forma, acredito que a comunidade terá mais subsídios para compreender o tema proposto em cada culto.

Portanto, quando nos reunirmos em comunidade para adoração do Senhor, precisamos ter em mente que tudo o que fizermos para Deus, deve ser feito com decência e ordem; como sugere o texto básico desta lição. É importante lembrar sempre que o culto que oferecemos a Deus deve ser caracterizado pelos elementos da fé e da razão, da emoção e do conhecimento.

 
Reverendo Adilson de Souza Filho